Os efeitos do isolamento social na saúde dos brasileiros

O 'Fique em casa' contribuiu para que o Brasil se tornasse líder em casos de ansiedade
A pandemia colocou o Brasil em primeiro lugar em casos de ansiedade e depressão entre 11 países | Ilustração: Paul Craft/Shutterstock

Insônia recorrente, medo constante, crises de pânico e tristeza extrema. A covid-19 não comprometeu apenas a saúde física dos brasileiros que contraíram o vírus Sars-CoV-2. A doença infecciosa também foi responsável por provocar um salto considerável no número de pessoas com depressão e ansiedade.

A imposição de quarentenas ajudou a construir no inconsciente dos brasileiros que eles poderiam adoecer tanto fisicamente como psiquicamente. E as consequências de medidas como o “Fique em Casa” estão nos dados.

Segundo uma pesquisa conduzida pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nos meses de maio, junho e julho de 2020, quando a pandemia estourou no mundo, cerca de 80% da população brasileira tornou-se mais ansiosa diante o novo coronavírus.

Quando o governo do Estado de São Paulo decretou, em março de 2020, as primeiras medidas de restrição, a maquiadora Rafaela Urso não apresentou, pelo menos de imediato, uma recaída no quadro depressivo e ansioso. “De início, foi tranquilo desacelerar do dia a dia, mas, depois de alguns meses, se tornou esgotante”, afirmou a jovem.

Assim como Rafaela, outros brasileiros tiveram a saúde mental prejudicada com a imposição do distanciamento social. Segundo uma pesquisa do Ministério da Saúde, no último ano mais de 11% da população disse ter recebido diagnóstico médico de depressão. “Tudo que faço exige sair de casa, então ficar trancada em um apartamento foi algo bem difícil. Nunca me senti tão mal na minha vida.”

A psicóloga Mayelen Casiano atendeu pacientes durante a pandemia de covid-19. Ela conta que, ao longo dos meses de isolamento, o caso mais comum acompanhado durante as consultas foi o de ansiedade, com destaque aos desdobramentos da doença, como síndrome do pânico e fobia social. “Percebi uma piora exacerbada, infelizmente”, afirmou.

Logo no início, quando as primeiras medidas restritivas foram impostas, o trabalho de Mayelen não foi fácil. Segundo a psicóloga, alguns pacientes não conseguiram comparecer aos atendimentos on-line, uma alternativa para quando os serviços presenciais na clínica em que trabalhava foram interrompidos. “Foi um desafio. Eles precisavam de acompanhamento na terapia, mas em decorrência da pandemia não puderam.”

Diagnosticado com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) — distúrbio caracterizado por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade —, Spinello desabafa sobre o descaso com a sua saúde mental, enquanto usava o tratamento da rede pública. A falta de comprometimento de alguns psicólogos, que costumavam chegar atrasados para os atendimentos, e de privacidade durante as consultas, que eram em grupo e duravam 45 minutos, o desestimulou a continuar com o serviço essencial.

“Durante a pandemia, desenvolvi crises de ansiedade, dificultando meus relacionamentos e socialização no geral”, afirma o jovem, que, apesar do descaso, defende o tratamento pelo SUS. “Os Caps são de extrema importância e são um direito do povo. O governo deveria investir bem mais em infraestrutura, melhores salários e benefícios para funcionários qualificados, implantação de psicólogos nos postos de saúde e consultas virtuais.”

Para além do tratamento em consultório, seja esse serviço virtual seja presencial, a questão das internações para ajudar no tratamento de portadores de transtorno mental também é amplamente discutida como um dos desafios que o próximo governo, eleito em novembro deste ano, deve superar.

O problema não é de hoje. Desde 2011, o governo federal não atualiza o valor do repasse financeiro para custeio dos Caps. Mas foi graças à comemoração do aniversário de 35 anos da Reforma Psiquiátrica no Brasil, movimento que ajudou a fechar manicômios e hospícios no país, que a pauta sobre o descaso da rede de saúde pública com os pacientes voltou a ser discutida.

“Os serviços públicos de tratamento à saúde são fundamentais, porém atualmente acontece um desmonte do financiamento dessa política”, afirma Fernanda Lou Sans Magano, conselheira do Segmento de Trabalhadoras e Trabalhadores, que representa o segmento na Mesa Diretora do Conselho Nacional de Saúde (CNS). “Está difícil garantir e respeitar os direitos dessas pessoas.”

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