Brasileiro encara 2ª volta ao mundo de carona e, agora, fora do armário

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Brasileiro encara 2ª volta ao mundo de carona e, agora, fora do armário

Sobre o Autor - Rafael Leick é comunicólogo e comunicador. Paulistano que já viajou o mundo, morou na Inglaterra em 2009, quando começou a escrever sobre viagem. É criador do Viaja Bi!, primeiro e principal blog de viagens LGBTQIA+ do Brasil. Trabalhou com diversos destinos e empresas do setor de turismo que conversam com a comunidade. Foi Diretor de Turismo da Câmara LGBT do Brasil e deu palestras no Brasil, Peru e EUA.

Sair pelo mundo com mochilão nas costas é uma aventura imaginada por muitos viajantes. Considerando os preços absurdos de passagem aérea hoje, essa pode ser realmente a única maneira de sair do país.

Se contarmos as pessoas que se jogam na estrada de um jeito mais "raiz" pedindo carona, aposto que esse número despenca. E se o fato de ser uma pessoa LGBTQIA+ for a terceira camada, adicionando um risco considerável dependendo do destino, restringimos ainda mais o número de pessoas dispostas a viver essa experiência.

Nesse período, trabalhou em dois projetos voluntários. Um, na Indonésia, onde teve seu dinheiro furtado, o que foi o estopim para a viagem de carona, e o outro em Mianmar, onde arranjou um emprego e ficou por 8 meses.

Voltando ao Brasil, foi conhecer de perto um projeto no Rio Grande do Sul criado por um outro viajante. A ideia era entender a motivação de pessoas que viajaram o mundo e o que querem fazer com toda a bagagem adquirida. Nesse percurso, fez Argentina e Uruguai de carona.

Na pandemia, morou no Sul do Brasil com seu namorado, escreveu e lançou por meio de financiamento coletivo seu livro — recomendo a leitura — e, no começo de 2022, pediu carona pelo país para o lançar presencialmente. A bagagem, dessa vez mais pesada com tantas páginas, foi se esvaziando em Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Sergipe e Minas Gerais.

A viagem atual, que conta com apoio financeiro recorrente de seus seguidores, foi motivada, inicialmente, pelo trajeto de carona de Portugal até a Índia, onde moraria e faria mais um trabalho voluntário. Mas o cenário é bem diferente do seu primeiro mochilão. De um lado, o mundo mudado pela covid-19, com pessoas que poderiam ter medo de receber um estranho em seus veículos ou em suas casas. De outro lado, um viajante entendendo melhor seu lugar no mundo, também como um homem gay.

Já fora do Brasil, o questionamento de como deveria seguir viagem considerando a invasão da Ucrânia pela Rússia, o calor extremo no Oriente Médio em pleno verão e um desencanto espiritual que fez o brilho da Índia se apagar um pouco.

Nesse cenário, a África surgiu como uma opção por conta de uma amiga no Quênia. O novo roteiro recomeçaria, então, na África do Sul, subindo lentamente pelo continente. E essa é sua localização atual, onde recentemente acampou a cerca de 15 metros de uma rodovia e, ao acordar, encontrou fezes ao lado da barraca, de algum animal que passou por ali à noite.

Na primeira viagem, não me incomodava muito em voltar para o armário, mas não me conectava tanto com a causa LGBTQIA+. Hoje me vejo mais ativista, tenho a bandeira do arco-íris tanto no meu perfil quanto na contracapa do meu livro. Não me sinto mais confortável voltando para o armário"

O armário que o protegeu algumas vezes na estrada, porém, ainda pode se fazer presente em diversas situações diferentes.

Em caronas, por exemplo, aparece o questionamento sobre ter namorada e, a fim de não criar um desconforto com a pessoa com quem estará por horas no carro ou caminhão e, por não saber sua reação, a resposta costuma ser que "tem um relacionamento".

A Indonésia foi o primeiro país que ofereceu uma diferença em relação à sexualidade. Morando com uma família muçulmana no meio da ilha de Sumatra, bem diferente da turística Bali, a heteronormatividade era forte e invasiva.

O preconceito "não existia" porque as pessoas sequer consideravam a possibilidade de alguém pudesse ser gay porque "isso não existia" e o maior choque era um homem com mais de 25 anos não ser casado.

Anos depois, ao compartilhar conteúdo LGBTQIA+ nas redes sociais, foi possível perceber que muitas pessoas desse período cortaram vínculo, porém outros locais se abriram para contar sobre suas experiências vivendo no armário.

Já em Mianmar, onde é crime ser gay, Flávio conviveu com outros expatriados, mas conheceu grupos locais que falavam sobre sua sexualidade, mesmo que sempre em sigilo. O único homem local com quem teve um encontro ficou desesperado quando o brasileiro deu investidas no cinema.

Na Cidade do Cabo, se hospedou na casa de um senhor muito curioso e questionador, cuja maior dúvida era se a exposição de sua sexualidade não o fazia sentir-se vulnerável. Em um hostel, um angolano o questionou se sendo brasileiro ele gostava de futebol e de garotas. E mesmo na África do Sul, país mais avançado do continente africano nas questões LGBTQIA+, há presunção da heteronormatividade. Os exemplos são variados e constantes.

Todo tempo eu tenho que lidar com o desconforto das pessoas assumirem que sou hétero"

O cansaço de se explicar a todo momento, porém, vai além de sua orientação sexual. O estranhamento é causado por diferentes aspectos de seu estilo de vida: é gay, vegetariano, não bebe álcool, vive um relacionamento não-monogâmico e uma vida nômade. Mas, segundo ele, por conta da África ter uma cultura de carne muito forte, ser vegetariano tem sido mais surpreendente para as pessoas do que sua sexualidade.

Apesar disso, foi no Brasil que a insegurança bateu quando um motorista passou a mão em sua perna, sem qualquer contexto, e ele pediu para descer. Triste é saber que foi só em terras brasileiras que, pedindo carona, ele ficou pela estrada.