Afeganistão afunda na pobreza e na doença após retorno do Talibã | Mundo | G1

Integrantes do Talibã desfilam por ruas de Cabul com armas para festejar o primeiro ano do regime no poder do Afeganistão, em 15 de agosto de 2022. — Foto: AFP

As salas lotadas do hospital em ruínas do distrito de Musa Qula, no sul do Afeganistão, são um dos símbolos da dramática crise humanitária no país, um ano após a volta ao poder dos talibãs.

No mês passado, este hospital na província de Helmand foi forçado a fechar suas portas, exceto para pessoas suspeitas de estarem infectadas com cólera. A enfermaria rapidamente se viu lotada de pacientes apáticos.

Embora a clínica não tenha o material necessário para diagnosticar a cólera, cerca de 550 pacientes apareceram em poucos dias. "É muito difícil", diz à AFP Ehsanullah Rodi, diretor do hospital, exausto pela situação e sem dormir mais de cinco horas por dia. "Não vimos nada parecido no ano passado, ou antes", garante.

O Talibã tomou o poder no Afeganistão em 15 de agosto, aproveitando a retirada apressada das forças estrangeiras lideradas pelos Estados Unidos.

Desde então, a violência diminuiu, mas a crise humanitária se agravou rapidamente.

Vice-primeiro-ministro do Talibã, Abdul Salam Hanafi, fala em evento de celebração do primeiro ano do regime no poder no Afeganistão, que causou uma forte crise humanitária no país. — Foto: AFP

A pobreza, que é mais aguda no sul do país, atingiu um nível desesperador, acentuada pela seca e pelo aumento dos preços desde a invasão da Ucrânia pela Rússia.

"Como o Emirado (Talibã) está no poder, não conseguimos encontrar nem óleo", lamenta uma mulher em um leito de hospital em Lashkar Gah, capital da província de Helmand, junto com seu neto de seis meses que sofre da desnutrição.

"Os pobres morrem esmagados aos seus pés", acrescenta esta mulher de 35 anos, com o rosto escondido atrás de um véu, sobre o Talibã.

Seu neto recebe tratamento pela quinta vez no Hospital Boost, um amontoado de prédios administrado em conjunto pelo Ministério da Saúde afegão e Médicos Sem Fronteiras (MSF).

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"Não conseguimos nem pão seco", se desespera Breshna, mãe de outro paciente. "Não comemos nada há três ou quatro dias".

A equipe "não tem descanso", diz Homeira Nowrozi, vice-supervisora de enfermagem.

"Temos muitos pacientes que chegam em estado crítico" porque os pais não puderam viajar mais cedo, explica. "Não sabemos quantas mortes (...) temos nos distritos" porque muitas pessoas "não vêm ao hospital", acrescenta Nowrozi, que luta para ser ouvida em meio aos gritos e choros das crianças.

Embora os problemas econômicos tenham começado muito antes do retorno do Talibã, a mudança de poder colocou o país de 38 milhões de pessoas à beira do precipício.

Os Estados Unidos congelaram os US$ 9,5 bilhões em ativos do Banco Central, o setor financeiro entrou em colapso e a ajuda externa, que representava 45% do PIB do país, foi subitamente cortada.

"Como você presta ajuda a um país cujo governo você não reconhece?", diz Roxanna Shapour, da Rede de Analistas do Afeganistão (AAN).

Soldado talibã caminha patrulha a pista do Aeroporto Internacional Hamid Karzai, em Cabul, capital do Afeganistão, em 5 de setembro de 2021 — Foto: Wali Sabawoon/AP

A ajuda humanitária diante de crises como o terremoto de junho, que matou mais de 1.000 pessoas e deixou dezenas de milhares desabrigados, é simples porque é "apolítica, é uma ajuda vital", explica.

Fundos também foram enviados para financiar ajuda alimentar e cuidados de saúde.

Mas para projetos de longo prazo é mais complexo.

"Se você chega e diz: 'vou pagar os salários dos professores', isso é ótimo", diz Shapour. "Mas então o que o Talibã fará com o dinheiro que não gastar com os salários dos professores?", continua.

Em Musa Qala, a economia parece mal subsistir com consertos de motocicletas, venda de ossos de aves e bebidas energéticas mantidas em freezers sujos.

A cidade, testemunha de alguns dos capítulos mais sangrentos da guerra de 2001-2021, está ligada a Lashkar Gah por uma trilha que sobe o leito seco de um rio.

A estrada continua mais ao sul, em Sangin, onde as paredes de tijolos de barro foram tão danificadas pelo fogo de artilharia que estão afundando.

"Agora podemos ir ao hospital, dia ou noite", explica Maimana, cuja filha Asia, de 8 anos, está sendo tratada em Musa Qala. "Antes havia combates e minas".

O fluxo de novos pacientes significa que há "menos espaço" e "menos funcionários, o que é difícil", diz à AFP o diretor de saúde pública de Helmand, Sayed Ahmad. No entanto, esse médico de fala mansa, cujo consultório é decorado com livros de Medicina, insiste que "a situação global é melhor" do que sob o governo anterior, onde a corrupção era abundante.

A bandeira do Talibã tremula em Helmand, hasteada em prédios crivados de balas.

Depois de duas décadas ansiando pelo controle do país, o Talibã teve sucesso em um momento em que o país está falido. "O uniforme do governo é grande demais para eles", diz um homem em Lashkar Gah, que pede para permanecer anônimo.