‘Black Rio nos Anos 70’ traz bailes que lotaram a cidade e foram alvo da ditadura

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) – Um dos mapas encartados em “Black Rio nos Anos 70: A Grande África Soul”, de André Diniz, é o bastante para justificar seu título hiperbólico. Nele, se vê o alcance dos bailes ao longo da década, atravessando mais de 30 bairros cariocas, de Botafogo, na zona sul), a Bangu, na zona oeste, passando por lugares como Tijuca, Méier e Penha, todos na zona norte.

A percepção geográfica do fenômeno, a partir de mapas como esse, é uma das contribuições do estudo para o entendimento do sucesso —um movimento que mobilizou milhares de jovens e deixou marcas na cultura brasileira para além das fronteiras cariocas.

“Quis chamar a atenção para como o movimento foi enorme e se espalhou pela cidade toda, praticamente. Por isso, brinco com a ideia da Pequena África, como ficou conhecida a região central do Rio que serviu de berço para o samba urbano na virada do século 19 para o 20, e batizo esse de Grande África Soul”, afirma Diniz.

Doutor em geografia cultural, o pesquisador defende que localizar espacialmente o Black Rio vai além da confirmação de seu tamanho.

“Você dá identidade e pertencimento no resgate dessa memória de um território esquecido historicamente pelo poder público, de uma cultura negligenciada pelos museus. Você fala de todas as reformas e não reformas desde [o engenheiro] Pereira Passos. Esse georreferenciamento trata disso.”

A narrativa da tendência contada no livro testemunha a invisibilidade de que fala Diniz. A reportagem histórica que apresenta o movimento —escrita por Lena Frias para o Jornal do Brasil— é de 1976, pelo menos cinco anos depois do início dos bailes. “A classe média, os formadores de opinião, não faziam ideia dessa cidade”, nota o autor. “Foi preciso que um office boy do jornal identificasse isso e levasse a repórter lá.”

O livro aponta que a descoberta do Black Rio pela grande mídia marca também o início de sua decadência. Por um lado, pela chegada de novos sons —especialmente a disco music e, mais tarde, o Miami bass— que começaram a mudar os perfis dos eventos, numa transição que levaria aos bailes charme e funk. Por outro, pelos ataques que vinham da direita, já que o movimento chegou a ser investigado pela ditadura, e da esquerda, que o acusava de ter uma postura alienada frente ao imperialismo americano.

“Direita e esquerda tinham o mesmo parâmetro de nacionalismo e valorização da cultura popular, além da aposta na miscigenação, na democracia racial, que vai de encontro ao que defendia o Black Rio”, explica Diniz. “É impressionante como intelectuais como Gilberto Freyre e Ferreira Gullar, um de perfil mais conservador e outro mais progressista, fazem críticas semelhantes ao movimento.”

A ideia de Grande África, nesse sentido, não é uma mera referência ao fato de ser um movimento cultural essencialmente negro. A identidade dos chamados “blacks” era construída a partir da diáspora, não a partir do nacionalismo —por isso a percepção que negros americanos eram irmãos em vez de imperialistas.

A diferença de perspectiva para o samba fica evidente em “Sou Mais o Samba”, música de Candeia feita em resposta —com uma dose de marketing— exatamente ao sucesso do Black Rio. Os primeiros versos dizem: “Eu não sou africano, nem norte-americano/ Ao som da viola e pandeiro, sou mais o samba brasileiro”.

A acusação que pairava sobre o movimento, de receber de forma acrítica a influência americana, parte de uma percepção limitada, acredita o autor.

“A afirmação do cabelo, da roupa, desses corpos, tudo isso já é um posicionamento político. Muitas ativistas do movimento negro tomaram contato com as questões de identidade a partir dos bailes black. Levando isso em conta, a produção de pensamento sobre o Black Rio é diminuta. Melhorou nos últimos anos, mas ainda é pouco, visto que era um movimento de massa.”

Nascido em 1969, Diniz chegou a frequentar festas black na adolescência, quando os antigos bailes soul já estavam em transição avançada para se tornar os bailes funk. “Peguei a estrutura que o baile soul deixou, as equipes de som como a Cash Box e a Furacão 2000 que depois viriam a se firmar no funk”, lembra.

O livro foi feito a partir de uma série de mais de 20 entrevistas, além da pesquisa em jornais e uma bibliografia que inclui “1976: Movimento Black Rio”, obra de referência sobre o movimento escrita por Luiz Felipe de Lima Peixoto e Zé Octávio Sebadelhe. A pesquisa de Diniz também foi uma das bases para o documentário “Trem do Soul”, de Clementino Luiz de Jesus Junior, lançado em 2021.

“Zé Octávio e Clementino foram parceiros no livro, assim como o professor Jorge Luiz Barbosa [orientador da pesquisa de doutorado que gerou a obra]”, conta Diniz.

“Em relação ao ‘1976: Movimento Black Rio’, meu trabalho recupera uma figura que não aparece tanto ali, o DJ Neném. Seu olhar sobre o movimento é muito pela festa, chega a dizer que nunca teve problemas com a ditadura. Mostro ele como uma espécie de contraposição a Dom Filó, mais politizado. São duas figuras muito diferentes e muito importantes.”

DJ, produtor e organizador de um dos bailes centrais do movimento, a “Noite do Shaft”, Dom Filó montou um playlist especialmente para o livro. Dividida em momentos que acompanham a dinâmica da pista de um baile black, ela vai de Pink Floyd a Curtys Mayfield, passando por The Tower of Power.

Outros personagens são destacados em pequenos boxes ao longo da obra, do pioneiro Big Boy, discotecário do “Baile da Pesada”, tido como o marco zero do movimento, a Lélia Gonzalez, intelectual negra importante para o pensamento de orgulho racial que alimentou o Black Rio.

Referenciado na identidade negra construída a partir dos Estados Unidos e na luta pelos direitos civis que se desenrolava por lá, o Black Rio tem marcas brasileiras, defende Diniz. Além da musicalidade de artistas como Tim Maia, Gerson King Combo e Banda Black Rio, os bailes traziam uma marca que o autor identifica como fruto de nossa colonização —a roda.

“A formação dos americanos no baile era o ‘soul train’, a ideia de um corredor onde pessoas vinham dançando. Aqui, os dançarinos se exibiam em rodas. A circularidade é muito mais presente na cultura brasileira, seja na capoeira ou no samba.”

É como Candeia, conciliatório e sábio, concluía em “Sou Mais o Samba”: “Calma, calma, minha gente/ Pra que tanto bambambam/ Pois os blacks de hoje em dia/ São os sambistas de amanhã”.

BLACK RIO NOS ANOS 70: A GRANDE ÁFRICA SOUL

Preço R$ 50 (224 págs.)

Autor André Diniz

Editora Numa Editora